Quando pensamos em testosterona, ainda existe uma associação quase automática com o organismo masculino.
Mas isso está errado.
Mulheres também produzem testosterona durante toda a vida.
O hormônio participa da fisiologia feminina e desperta cada vez mais interesse porque muitas mulheres chegam ao consultório relatando redução do desejo sexual durante a transição menopausal.
Surge então uma pergunta frequente:
“A testosterona cai quando eu entro na menopausa?”
A resposta exige um pouco mais de precisão.
A testosterona não despenca simplesmente porque a menopausa chegou
Diferentemente do estradiol, que apresenta uma queda importante relacionada à falência da função folicular ovariana, a testosterona feminina tende a diminuir progressivamente ao longo da vida.
Ou seja:
idade e menopausa não são exatamente a mesma coisa.
A mulher pode apresentar níveis menores de testosterona aos 45 ou 50 anos do que apresentava aos 25, mas isso não significa necessariamente que tenha ocorrido uma queda súbita no momento em que sua menstruação cessou.
Essa distinção é importante porque evita transformar qualquer sintoma da mulher madura em “falta de testosterona”.
Então por que tantas mulheres percebem mudanças nessa fase?
Porque a menopausa não modifica apenas um hormônio.
Existe uma mudança global do ambiente hormonal.
Ao mesmo tempo, a mulher pode estar vivendo:
- piora do sono;
- ondas de calor;
- ressecamento vaginal;
- dor durante relações sexuais;
- alterações de humor;
- uso de determinados medicamentos;
- mudanças no relacionamento;
- estresse;
- sobrecarga;
- doenças metabólicas;
- mudanças na percepção do próprio corpo.
Todos esses fatores podem interferir na sexualidade.
Por isso, quando uma mulher diz:
“Minha libido desapareceu.”
A resposta médica não pode ser simplesmente:
“Falta testosterona.”
Precisamos investigar.
Existe exame para saber se uma mulher tem falta de testosterona?
A testosterona pode ser dosada.
Mas existe uma diferença fundamental entre medir um hormônio e diagnosticar uma condição clínica.
Não há um único valor de testosterona no exame de sangue capaz de explicar, sozinho, se uma mulher tem ou não desejo sexual adequado.
A avaliação precisa considerar:
- história sexual;
- presença de sofrimento ou incômodo;
- relacionamento;
- medicamentos em uso;
- sintomas geniturinários;
- contexto emocional;
- doenças associadas;
- demais alterações hormonais.
O laboratório faz parte da investigação.
Ele não substitui a história.
Quais sintomas podem levantar a discussão sobre testosterona?
O sintoma com melhor respaldo científico para considerar terapia com testosterona em mulheres pós-menopausa selecionadas é o transtorno do desejo sexual hipoativo, conhecido pela sigla HSDD.
Não estamos falando simplesmente de uma mulher que eventualmente não está com vontade de ter relação.
Desejo varia naturalmente.
O problema aparece quando existe redução persistente do desejo sexual, não explicada por outra condição importante, e essa mudança gera sofrimento para a mulher.
É aí que uma avaliação específica passa a fazer sentido.
E sintomas como cansaço e perda de massa muscular?
Esse é um ponto em que precisamos ter cuidado.
Testosterona participa da fisiologia muscular e metabólica, mas isso não significa que toda mulher cansada, com dificuldade para ganhar massa muscular ou insatisfeita com sua composição corporal tenha indicação de terapia com testosterona.
Cansaço pode ter inúmeras causas:
- anemia;
- hipotireoidismo;
- privação de sono;
- deficiência nutricional;
- depressão;
- sedentarismo;
- sobrecarga;
- resistência insulínica;
- efeitos de medicamentos;
- alterações próprias da transição menopausal.
Medicina de precisão significa resistir à tentação das explicações simples demais.
Quando a testosterona pode entrar no tratamento?
Depois de uma avaliação adequada, algumas mulheres pós-menopausa com transtorno do desejo sexual hipoativo podem se beneficiar de terapia com testosterona.
Isso não significa que toda mulher na menopausa precise receber testosterona.
Significa que existe uma indicação clínica específica em que o tratamento possui respaldo científico.
A decisão deve considerar:
- diagnóstico;
- contraindicações;
- medicamentos utilizados;
- perfil de risco;
- acompanhamento laboratorial;
- resposta clínica;
- possíveis efeitos adversos.
O objetivo nunca deve ser criar níveis hormonais excessivos.
O tratamento precisa permanecer dentro de parâmetros fisiológicos femininos.
Mais hormônio significa mais resultado?
Não.
E esse é um princípio que vale para praticamente toda terapia hormonal.
Hormônio não funciona pela lógica de “quanto mais, melhor”.
Doses excessivas de testosterona podem causar efeitos indesejados como:
- acne;
- aumento da oleosidade da pele;
- crescimento de pelos;
- alterações capilares;
- mudanças na voz em situações de exposição excessiva;
- alterações laboratoriais dependendo da formulação e da dose.
Por isso, acompanhamento é parte do tratamento.
Não é um detalhe.
Testosterona é hormônio feminino?
Sim.
Talvez seja melhor abandonar a divisão simplista entre “hormônio masculino” e “hormônio feminino”.
Homens e mulheres possuem estrogênios e androgênios.
O que muda são concentrações, produção, metabolismo e função.
A testosterona faz parte da fisiologia da mulher.
Mas reconhecer isso não significa transformar testosterona em solução universal para a menopausa.
Essas duas ideias precisam coexistir.
Perguntas frequentes
A testosterona cai na menopausa?
Os níveis de testosterona tendem a diminuir com o envelhecimento, mas, na menopausa natural, não existe necessariamente a queda abrupta observada com o estradiol.
Testosterona baixa causa perda de libido?
A testosterona participa da função sexual, mas libido é multifatorial. Um exame baixo isoladamente não é suficiente para explicar a perda de desejo.
Toda mulher com baixa libido precisa usar testosterona?
Não. É necessário investigar outras causas e estabelecer o diagnóstico adequado.
Existe tratamento com testosterona para mulheres?
Sim. Há evidência para seu uso em mulheres pós-menopausa selecionadas com transtorno do desejo sexual hipoativo, após avaliação médica apropriada.
O mais importante
Quando falamos em testosterona na mulher, precisamos fugir de dois extremos.
O primeiro é acreditar que ela não tem importância porque seria um “hormônio masculino”.
O segundo é acreditar que ela explica todo cansaço, toda perda de libido e toda mudança que acontece depois dos 40.
Nenhuma dessas ideias está correta.
O que existe é fisiologia.
Existe história.
Existe contexto.
E existe uma mulher inteira que precisa ser avaliada antes que qualquer hormônio seja prescrito.
Na Florenza, hormônio não é ponto de partida.
A mulher é.
Dr. Fabio Toimil
Médico Ginecologista
Especialista em Menopausa e Perimenopausa
Instituto Florenza
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta, diagnóstico ou orientação individual de profissional habilitado.

